Ensinar exige consciência do inacabado, da construção ou produção do conhecimento que implica o exercício da curiosidade, sua capacidade crítica de "tomar distância" do objeto, de observá-lo, de delimitá-lo, de "cercar" o objeto ou fazer sua aproximação metódica, sua capacidade de comparar, de perguntar. O exercício da curiosidade a faz mais criticamente curiosa, mais metodicamente "perseguidora" do seu objeto. Quanto mais a curiosidade espontânea se intensifica, mais preparado para pensar a própria curiosidade. Como os demais saberes, este demanda do educador um exercício permanente. É a convivência amorosa com seus alunos e na postura curiosa e aberta que assume e, ao mesmo tempo, provoca-os a se assumirem enquanto sujeitos sócios-históricos-culturais do ato de conhecer, é que ele pode falar do respeito à dignidade é impermeável à mudanças. Ensinar exige o reconhecimento de ser condicionado, o respeitoe autonomia do educando. Pressupõe romper com concepções e práticas que negam a compreensão da educação. A competência técnico-científica e o rigor de que o professor não deve abrir mão do desenvolvimento do seu trabalho, não são incompatíveis com a amorosidade necessária às relações educativas. Essa postura ajuda a construir o ambiente favorável à produção do conhecimento onde o medo do professor e o mito que se cria em torno da sua pessoa vão sendo desvalados. É preciso aprender a ser coerente. De nada adianta o discurso competente se a ação pedagógica à autonomia do ser do educando, o bom senso, humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos dos educadores. O fundamental é que o professor e alunos saibam que a postura deles, do professor e dos alunos, é dialógica, aberta, curiosa, indagadora e não apassivada, enquanto fala ou enquanto ouve. O que importa é que professor e alunos se assumam epistemologicamente curiosos. Neste sentido, o bom professor é o que consegue, enquanto fala, trazer o aluno até a intimidade do movimento de seu pensamento. Sua aula é assim um desafio. Ensinar exige apreensão da realidade, exige alegria e esperança, exige a convicção de que a mudança é possível, exige curiosidade. Como prática estritamente humana jamais pude entender a educação como uma experiência fria, sem alma, em que os sentimentos e as emoções, os desejos, os sonhos devessem ser reprimidos por uma espécie de ditadura reacionarista. Nem tampouco jamais compreendi a prática educativa como uma experiência a que faltasse o rigor em que se gera a necessária disciplina intelectual . Ensinar é uma especificidade humana, exige segurança, competência profissional e generosidade, exige comprometimento, compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo, liberdade à autoridade, tomada consciente de decisões, saber escutar, exige reconhecer que a educação é ideológica. A boniteza da prática docente se compõe do anseio vivo de competência do docente e dos discentes e de seu sonho ético. Não há nesta boniteza lugar para a negação da decência, nem de forma grosseira nem farisaica. Não há lugar para puritanismo. Só há lugar para pureza. Este é outro saber indispensável à prática docente. O saber da impossibilidade de desunir o ensino dos conteúdos da formação ética dos educandos. De separar prática de teoria, autoridade de liberdade, ignorância de saber, respeito ao professor de respeito aos alunos, ensinar de aprender. Nenhum destes termos pode ser mecanicistamente separado, um do outro. Quanto mais penso sobre a prática educativa, reconhecendo a responsabilidade que ela exige, tanto mais me convenço do dever nosso de lutar no sentido de que ela seja realmente respeitada. A rigosidade, a séria disciplina intelectual, os exercícios da curiosidade epistemológica não fazem de ninguém necessariamente um ser mal-amado, arrogante, cheio de si mesmo. Ou, em outras palavras, não é a arrogância intelectual a que fala da rigorosidade científica. Nem a arrogância é sinal de competência nem a competência é causa de arrogância. Não nego a competência, por outro lado, de certos arrogantes, mas lamento neles a ausência de simplicidade que, não diminuindo em nada seu saber, os faria gente melhor. GENTE MAIS GENTE. ( Paulo Freire)
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